João Cabral de Melo Neto escreveu Morte e vida severina, um dos meus livros favoritos de todos os tempos. Um trecho do poema a seguir foi musicado. A versão mais conhecida da música é a do Chico Buarque (eu não sabia disso até agora há pouco), mas continuo preferindo a única que conhecia, que é de Rolando Boldrin e Renato Teixeira. Segue o poema e, em seguida, a música:
ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO
—— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
—— é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.
—— Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
—— é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
—— é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
—— é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.
—— Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
—— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
—— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
—— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
—— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
—— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
—— Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
—— Será de terra
e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
—— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
—— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
—— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
—— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.
—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo)
—— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
—— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
—— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos)
—— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).
—— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
—— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
—— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
—— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
—— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
—— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.
—— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
—— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
—— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
—— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.
—— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
—— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
—— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha,
—— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.
—— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
—— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito à viração.
—— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
—— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
—— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
—— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com que se dorme.
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quinta-feira, 26 de março de 2015
domingo, 15 de março de 2015
João Cabral de Melo Neto
Além de ter escrito Morte e Vida Severina, um dos meus poemas dramáticos preferidos, o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto deixou outras obras excelentes e uma das que mais me encantam é Os Três Mal-Amados. Neste poema se alternam os discursos de 3 homens: João, Raimundo e Joaquim. Eu gosto da obra como é, mas amo os trechos do Joaquim mais do que os do João e Raimundo. Aqui seguem todos eles reunidos, formando um texto contínuo.
Os Três Mal-Amados
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte
sábado, 14 de março de 2015
Cordel recitado por Lirinha
Eu adoro cordel e adoro a banda Cordel do Fogo Encantado. Já vi dois shows deles e tive contato com o Lirinha (vocalista) quando ajudei na organização de uma das edições do projeto Criatividade e Pós-Modernidade na época da faculdade. Lirinha é uma biblioteca ambulante de cordel e citações maravilhosas pouco conhecidas. Nesse vídeo ele recita Chico Pedrosa e, no próximo, Zé da Luz.
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